10 Maio 2008
Uma noite no Sahara
Depois de muito pesquisar as várias opções marroquinas de tours pelo Sahara, decidimos por visitar Erg Chigaga, tendo como ponto de partida a cidade de Zagora.
Resumidamente, posso dizer que preferimos visitar Erg Chigaga por ser mais longe da civilização e menos turístico que Erg Chebbi e decidimos por Zagora pelos motivos opostos: por ser mais perto da civilização e mais turístico que M’hamid!
Fomos a Zagora de carro, a partir de Marrakech. Embora a estrada seja boa e a distância seja relativamente pouca (nem 300km), leva bem umas 6 horas para fazer esse percurso, pois a estrada é estreita e muito movimentada. Mas não por causa dos carros, não! Carro por ali era o nosso e olhe lá, o problema era a enorme quantidade de pastores com suas cabras, crianças brincando e crianças trabalhando, além de muitos policiais ávidos por te multar por excesso de velocidade.
Resultado: calculamos mal o tempo da viagem e os últimos 30km até Zagora foram de muita tensão e velocidade baixíssima, pois tinha anoitecido e de noite é impossível ver as pessoas que andam pela estrada. Para piorar a situação, todos se vestem de preto!
Enfim Zagora! Um bom banho, um típico jantar marroquino no hotel (já não podia mais ver tajine na minha frente, mas as opções de menu por ali são meio restritas…) e uma bela noite de sono para, no dia seguinte, explorarmos o Sahara!
Nove horas da manhã e estávamos prontos na porta da agência que nos levaria às dunas do Sahara. É claro que do lado da agência tinha uma lojinha de souvenirs e é claro que, enquanto esperávamos, o vendedor nos convenceu a comprar turbantes para a aventura! Turistas…
Saímos de Zagora em um 4×4, na companhia de um guia que falava inglês e de um motorista que permaneceu mudo todo o tempo.
Primeira parada: um boteco no meio de uma cidadezinha perdida sabe Deus onde, a fim de comprarmos pão para a nossa jornada…
O método marroquino para escolher pães naquele boteco é bem simples: primeiro se coloca todos os pães existentes sobre um balcão (com várias pessoas e objetos apoiados ali, obviamente), depois é só apalpar um a um até encontrar o pão que atenda as suas necessidades (seja elas quais forem…). Está em dúvida? Apalpa de novo! Daí é só colocar o dinheiro sobre o mesmo balcão, de preferência embaixo dos pães restantes (para não voar, é claro), e a transação está concluída! Simples assim!
Pode parecer estranho, mas essa parada nesse boteco foi essencial para que eu me desse conta que se eu quisesse aproveitar a viagem e me divertir por ali, teria que me abstrair de alguns “detalhes” da minha vida cotidiana, como a higiene, por exemplo…
Prosseguimos nossa viagem off road no meio do nada. Eu nunca vi tanto nada junto! É o nada no seu estado mais puro! De vez em quando, ao longe, dava pra avistar umas montanhas e o Vale do Draa e de vez em quando surgia uma plantinha aqui e ali ou um acampamento nômade…E eis que, finalmente e bem na hora do almoço, chegamos na nossa segunda parada: um oásis!
Visto de longe é bem como nos filmes: um monte de palmeiras reunidas e muito nada ao redor! Eu estava excitadíssima com a idéia de almoçar num oásis de verdade no meio do Sahara de verdade! Já fui logo ajeitando o meu turbante pra entrar bem no clima! A primeira impressão foi ótima: sombra, barracas improvisadas decoradas com tapetes berberes, almofadas pelo chão… Um lugar perfeito para se descansar nas horas mais quentes do dia! Mas… cadê a água fresca??
Pois é… a água do oásis vinha de um poço pequeno, era meio suja e utilizada com muita parcimônia pelos locais… A vantagem de ser turista é que o nosso guia tinha providenciado muita garrafa de água mineral pra nós (a que nós levamos não deu nem pro cheiro!).
OK, água nós tínhamos, mas fresca? Só em sonho! Eu não entendi a razão, mas sob um sol de mais de 40 graus, o povo dá conta de beber chá de menta quente! E, além disso, nada de geladeira! Todo mundo bebe água em temperatura ambiente, ou seja uns 40 graus!!
Confesso que tomar água morna não é nada agradável, mas é sempre melhor do que não tomar… Mas sabe que, curiosamente e contrariando todas as minhas expectativas, o chá de menta quente era bom e refrescante? Vai entender…
O nosso guia preparou o nosso almoço que consistia no fatídico pão escolhido minuciosamente no boteco no meio da estrada, salada de tomate no estilo marroquino (quer dizer com coentro até a alma), queijo do tipo Polenghinho (??) e atum!! Atum foi a coisa mais bizarra que eu poderia comer num deserto , mas era atum daqueles enlatados, tá valendo!
Mais um pouco de chá de menta quente e a bexiga começa a reclamar… Onde mesmo é o banheiro?
Banheiro!? Que banheiro? Todo o glamour do oásis foi-se embora enquanto eu me dirigia à duna mais próxima… Que situação! Ninguém merece esvaziar a bexiga agachadinha atrás de uma duna! Pior: prestando atenção na direção do vento para não molhar os pés!
Já aliviada, me veio uma dúvida cruel: usar ou não usar o papel higiênico que eu trazia na bolsa? Se sim, o que fazer com ele depois de usado? Deixá-lo voar ao sabor do vento? Enterrá-lo? O que você faria?
Basta! Vamos subir o nível do post…
Após o almoço tínhamos uma hora de sol forte para aquela dormidinha básica antes de prosseguir viagem… Como não sou do tipo que dorme à tarde, fiquei ali observando o nada… De repente, não mais que de repente, uma meia dúzia de cabras, vindas do além, aparecem por ali procurando água e comida…
Pareciam “habituées” do oásis, pois sabiam exatamente onde era o poço e onde ficava a “cozinha”. Enquanto todos dormiam, elas beberam um pouco de água, comeram um restos de comida, lamberam todos o pratos que estavam por ali (ooooommmmm…. eu devo me abstrair desses “detalhes higiênicos”, ooooooommmmmmm…) e foram embora felizes, de barriga cheia!
Alguns minutos depois da partida das cabras, foi a nossa vez de prosseguir viagem. Mais quilômetros e quilômetros de nada e chegamos no nosso “bivouac” debaixo de muito vento!
Diz a lenda que vento no deserto é estraga-prazeres como chuva na praia… Realmente, por causa de toda aquela areia em suspensão, o tempo parecia nubladão e os nossos turbantes foram muito mais úteis do que eu imaginei que seriam, pois protegem mesmo! Mas o vento nem atrapalhou tanto a minha diversão! Eram montes de areia que não acabavam mais e eu feliz como uma criança subindo e descendo cada um deles e rolando duna abaixo… Tentei até fazer o “anjo”, como se faz na neve, mas não deu muito certo…
Mais suja impossível, voltamos ao acampamento para mais uma dose de chá de menta quente e ver o por-do-sol dali mesmo. Com todo aquele vento, o por-do-sol não teve muita cor, mas foi bonito assim mesmo!
O nosso acampamento era composto de umas 6 barracas feitas com cobertores de lã, umas 4 barracas para os turistas, 1 barraca que fazia as vezes de restaurante, 1 para a cozinha e uma construção de cimento muito precária, com um buraco no chão, fazendo as vezes de banheiro (prometo que dessa vez não comento nada sobre o banheiro!).
Já estava anoitecendo e o nosso guia foi preparar o nosso jantar… Os outros turistas que estavam no mesmo acampamento com a gente (um casal com um filho adolescente e seus respectivos guias) preferiram jantar ao pé de uma fogueira; nós achamos melhor usar a barraca restaurante, romanticamente à luz de lampião e protegidos do vento.
Para o jantar, veio a sempre presente salada de coentros ligeiramente aromatizada com tomates, o nosso pão de ontem, hoje e sempre e uma tajine de frango com legumes. Embora estivéssemos cansados de tanto comer tajine no Marrocos, o jantar estava bem gostoso, o nosso guia sabe cozinhar direitinho. Fruta de sobremesa (um melão incrivelmente doce!) e o inexorável chá de menta quente pra finalizar.
Programaço após um jantar no Sahara: deitar numa duna e observar as estrelas! Eu nunca vi tanta estrela reunida e nem tanta estrela cadente de uma só vez, eu não tinha mais pedidos para fazer!
Ficar ali, naquele silêncio absoluto, observando estrelas te faz perder completamente a noção do tempo e do espaço. Não tenho idéia de quanto tempo ficamos ali, quando nos demos conta, todo mundo do acampamento já tinha ido dormir (alguns ao relento).
Gastei meio litro de Opti Free para lavar as mãos e tentar tirar minhas lentes de contato, que já estavam me incomodando há tempos e fomos dormir também (acho que traumatizei com o vento e preferi o aconchego da barraca, em vez de dormir sob a estrelas como alguns fizeram…)
Dentro da barraca tinha um colchãozinho molengo, mas confortável, lençol limpinho (ressalva: não sei se estava limpo mesmo, ou se estava limpo comparado com as condições de higiene que havíamos encontrado até então, ou se estava limpo comparado à minha própria imundície) e dois cobertores de lã de carneiro!
Antes de dormir, o lençol me incomodava de tão quente que estava, mas quando acordei, tinha os cobertores até as orelhas!
O dia no deserto começa cedo, às 5h30 da manhã eu já estava toda faceira sobre uma duna pra ver o nascer do sol (desta vez, sem vento), em seguida o guia nos serviu o café da manhã ao ar livre, onde não poderia faltar o nosso bom e velho amigo pão, geléia, leite, nescafé e, obviamente, o chá de menta!
Logo após o café da manhã, final da aventura. Juntamos nossas coisas e, três horas depois, estávamos de volta a Zagora, doidos por um banheiro limpo.
Apesar dos perrengues com a questão da higiene básica, e de passar mais de 24 horas sem poder sequer lavar as mãos, foi uma aventura maravilhosa e uma experiência incrível que recomendo vivamente! É um tour inesquecível que rende sempre ótimas risadas ao lembrar dos detalhes “trágicos”!
Mas é o tipo da coisa que se faz uma vez na vida e nunca mais!

























































